Bateria é o instrumento mais fácil de tocar. Mal.

Por Christiano Rocha

Primeiro, uma retrospectiva. Nos últimos cinco dias, fiz o lançamento do meu segundo livro, Play!, ensaiei com o quarteto instrumental do excelente guitarrista Fábio Santini e toquei numa gig de rock e pop com músicos legais e experientes. No papel soa bonito, não? Mas como escrevem os jovens nas redes sociais: SQN. Só que não mesmo.

Vamos lá. No lançamento, toquei músicas do meu CD Ritmismo, lançado há dez anos, ou seja, trata-se de uma coisa velha. Também toquei material de outros dois discos que gravei há um bom tempo: Marco, da cantora Adriana Godoy, e Lightwalk, do tecladista Corciolli. Tudo música que conheço de trás pra frente. Nada de novidade para mim. Até comprei um chimbal remoto para tocar uma das músicas de forma diferente, para não me sentir tão parado no tempo, junto com um Falcon e seu helicóptero amarelo. Quem é da minha geração vai entender.

Enfim, pelo menos a música com esse chimbal remoto eu toquei razoavelmente bem. As outras, nem tanto. Uma coisa é “passar” uma música. Outra é dominá-la. Para tanto, a repetição exaustiva é um bom começo. Um começo.

No ensaio que fiz dias depois do lançamento, tocamos Footprints, um standard que todo mundo toca, mas com um arranjo um pouco diferente, feito pelo Santini. Não deveria ser um problema, mas apanhei. Saí do ensaio com “menos 10”, absolutamente frustrado e decepcionado comigo.

Isso a gente não costuma colocar no Face. E quase não coloco neste blog.

Na gig de pop, fora algumas canjas, quase nenhuma novidade, afinal, toco com o pessoal há mais de um ano. E, convenhamos, tocar Born to Be Wild não deveria ser um grande problema.

Resumo da ópera: toquei as músicas do Play! no limite da mediocridade, fiz um ensaio horrível e fechei a semana com uma performance medíocre na gig. Detalhe: passei as músicas, não bebi, não fiquei doidão, não tomei remédio tarja preta, não levei um pé na bunda, meu papagaio não morreu (até porque não tenho um). Não houve nada para comprometer minha performance.

Com 30 anos de profissão nas costas, ainda me sinto desconfortável em diversas situações musicais. Preciso estudar mais, mas, mais que isso, preciso “praticar na prática”, que é tocando com músicos, com regularidade. “Praticar na teoria”, que também é preciso, envolve o estudo no “quartinho”, pad, livros, play-alongs e afins. A velha história: jogo é jogo, treino é treino.

No meio no qual tenho transitado, músicas como Born to Be Wild e Footprints, precisam estar no setlist eterno! Aliás, eis uma parte fundamental na bagagem de um músico profissional: repertório. Isso envolve forma, no caso de standards, e conhecimento de levadas, no caso de clássicos do rock. Às vezes os dois, apesar de que ninguém pergunta numa canja “Como é a levada de All Blues?”. Ou “Qual é a forma de Smoke on the Water?”.

Convenhamos: ninguém da plateia quer saber se a última vez que você tocou Deep Purple foi há 15 anos. Mais uma lição.

Quando vejo alguém como o Cuca tocando, pra cacete, e com extrema facilidade, fica clara a quilometragem do cara. Estudando e tocando, principalmente tocando. Com gente, geralmente o tempo todo. Nada vem de mão beijada. É aquela história da pessoa que disse a um músico algo como “Eu daria minha vida para tocar assim”. E o músico responde: “Mas eu dei!”. Toma, fio!

Agora é hora de melhorar o que está péssimo, fugir das desculpinhas e ir à luta.

Meu Deus, como é difícil tocar esse instrumento!