Escolhas da vida

Por Vlad Rocha

Muita gente não sabe, mas antes de viver exclusivamente da bateria eu era um profissional da área publicitária. Me formei em propaganda e marketing em 1998, pouco depois de completar 21 anos. Aos 22 já trabalhava no departamento de mídia de uma grande agência de publicidade, atendendo clientes de alto investimento. Bradesco, Correios, Ministério do Trabalho, Hewlett Packard. Depois mudei de agência e fui atender Dell Computadores, Le Postiche, iG e alguns clientes do setor imobiliário. Mas sempre me mantive tocando. Fiz um bom tempo de aulas com o grande Alaor Neves nessa época, inclusive. Entre 2001 e o final de 2003 fiz parte da banda Maybees, que em 2002 se reinventou e se transformou no Ludov. Conheci os demais membros dessa banda devido à publicidade, já que eu havia estudado junto com a maioria deles na faculdade de propaganda e marketing, a ESPM. Dava pra ensaiar, fazer gig e também gravar disco. No final de 2003, devido ao aumento das minhas funções na agência, optei por sair da banda. Uma escolha. Acertada, pois era o que eu queria na época. Troquei a música pelo mundo publicitário, que pagava minhas contas.

Ao mudar de agência, mais perto do final de 2003 (e pouco depois da minha saída do Ludov), ganhei um aumento de salário, de responsabilidades e também de estresse. Resumindo uma história um pouco mais longa, minha vida pessoal foi se reduzindo a zero. Já não conseguia estudar bateria quanto eu queria. Estava sem banda também. Meus dias se resumiam a pensar em formas de fazer meus clientes ganharem mais dinheiro. E assim as coisas foram se desenrolando até meados de 2005. Lembro muito bem. No final de 2004, uma luz amarela se acendeu, quando meus superiores, curtindo o final de ano na praia, me ligaram desesperados para eu preparar um plano de mídia urgente envolvendo TV e revista. Um dia apenas para fazer o plano. Fiz, e o cliente acabou não liberando a verba para fazer a campanha. Tudo em vão. Foi num dia 29 de dezembro, data triste para mim, pois foi nessa data que perdi meu pai em 1995. Eu fiz, porém uma pulga atrás da orelha foi começando a se transformar aos poucos em um rinoceronte. Comecei a refletir sobre minha “missão” de vida. Cada dia que passava acordando cedo para “pensar como fazer meu cliente ganhar dinheiro” era um dia a menos de vida. Essa sensação de “ausência” foi aumentando. Um dia, no segundo bimestre de 2005, quando precisei trabalhar até as 7h da manhã (sim, varei a noite), levei uma bronca enorme por ter chegado na agência às 12h. O expediente começava às 9h, e quem sou eu para ousar não respeitar, não é mesmo? Pensei: “Estou dando meu tempo, minha força de trabalho e minha saúde para atingir o objetivo de fazer o meu cliente ganhar dinheiro”. Uma luz vermelha então se acendeu. Conversei com pessoas queridas — como minha mãe, uma das minhas maiores referências — e decidi. Minha mãe disse: “Faça o que te deixa feliz”. Decidi que iria largar o mercado publicitário. Verifiquei que tinha uma reserva sobrando que me ajudaria a me manter caso as coisas não dessem certo. Iria me dedicar somente à bateria. Conversei na agência e entenderam. Fariam um acordo para me demitir desde que eu preparasse uma pessoa para assumir meu lugar. Acabei ficando mais dois meses fazendo “frilas” para a agência. Dei sorte, pois na mesma época meu ex-professor de bateria Neto Botelho — que me ensinou muita coisa e a quem devo muito — havia me indicado para dar aulas em uma escola de música na Granja Viana, onde fiz bons amigos (alguns com quem toco até hoje) e onde trabalhei até 2012. Outra escolha de vida.

Não vou entrar em detalhes sobre como as coisas foram se desenrolando depois, mas meu objetivo de vida mudou de “fazer meu cliente ganhar dinheiro” para “fazer as pessoas ficarem felizes”, inspirando-as com a música. E valeu a pena. O “preço” disso é inestimável, e é algo que me completa muito mais.
A vida é realmente feita de escolhas. Muitas vezes somos “forçados” a seguir um caminho que indica uma melhor estabilidade financeira. Mas e as outras estabilidades? E a emocional? E a autorrealização? Essas coisas contam muito também. Muitas vezes me pego pensando: “Qual é a vantagem de passar pela vida apenas para sobreviver?”. Já dormi muitas vezes feliz por receber mensagens de gratidão por algo que pude ensinar. Ou então por ter feito alguém se divertir e curtir em uma gig. E também por textos que já escrevi. Escolher viver da bateria foi uma das decisões mais acertadas que tomei na vida. Isso me proporcionou a possibilidade de passar pela vida “existindo”. Podendo fazer a coisa de que mais gosto. E, de quebra, ainda conheci muita gente bacana e importante para mim, como o brother Christiano Rocha — ex-professor, mestre eterno, meio-irmão e meio-pai. Fiquei muito honrado de ser chamado por ele para fazer o Ritmismo, e buscamos cada dia mais usar este espaço exatamente para tentar inspirar e fazer as pessoas felizes.

Missão cumprida? Longe disso. Continuo sempre nessa busca contínua de melhorar, assim posso conseguir “inspirar melhor”. Vamos nessa!

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