Onde tudo começou

Por Christiano Rocha

Voltei a morar no lugar onde meu interesse pela música começou. Um prédio no Planalto Paulista onde rolavam os bailinhos nos fins de semana. Época em que a garotada ainda brincava na rua.
Antes mesmo de saber o que significava “aro 14″”, eu montava uma bateria improvisada com tampas de pizza (da pizzaria Arca, que tinha uma pizza horrível, diga-se de passagem), um par de chimbal de 15″ Ziltannan e um Avedis de 22″, resquícios de um tempo em que meu pai tocava bateria como hobby, como você pode ver na foto a seguir.

Aliás, usei esses pratos — que tenho até hoje — em algumas faixas do meu CD Ritmismo. Enfim, nessa bateria “customizada” eu ficava dublando — não tocando — músicas de que gostava, e das quais, dentro do possível, conseguia imitar os movimentos que o baterista supostamente deveria fazer. Pode parecer absolutamente ridículo, mas uma dessas músicas era The Other Woman, de um cara chamado Ray Parker Jr. (o clipe dessa música é absolutamente pavoroso). Seria mais impactante eu dizer que chapava nos fills do Cobham na Mahavishnu ou que tentava imitar os movimentos do John Bonham. Só que não, até porque eu não fazia a menor ideia de quem eram esses caras.

Eu escutava rádio nessa época, porque dava para fazer isso, mas também comprava — na Hi-Fi ou no Museu do Disco, lojas no Shopping Center Ibirapuera (lembro do cheiro do fliperama de lá até hoje!) — LPs do Van Halen, Quiet Riot, Scorpions, Kiss… Era roqueiro. Fajuto, mas era. Também adorava os programas de música da TV Cultura, a começar pelo Fábrica do Som. Lembro de ver o Barone com os Paralamas. Pirava no cara. Décadas depois, ele me falou que não tirava o disco Ritmismo do carro dele (e escutava). Pior. Décadas depois conheci pessoalmente dois caras que escutei bastante, a partir do final da década de 1980: Stewart Copeland e Neil Peart, na ocasião em que fui entrevistá-los. Em compensação, uma de minhas grandes frustrações foi não ter conhecido o Alex Van Halen e o Jeff Porcaro (esse mais que qualquer um, pois dizem que ele era um cara sensacional).

Voltando a meados dos anos 1980, meu pai, Roberto Rocha — um audiófilo munido de Kenwood, Marantz e afins —, escutava Keith Jarret, Charlie Haden, Dave Brubeck… Minha cabeça só abriria bem depois. Não fazia a menor ideia do que significava ECM. Hoje sei. Felizmente. Graças ao meu pai. Minha mãe, Claudia Azevedo, artista plástica e professora, formada em artes plásticas — e em música — na faculdade Santa Marcelina, queria que eu fosse feliz, com ou sem música, apesar de que sem música é impossível ser feliz. O fato é que meus pais nunca embaçaram pelo fato de eu ter abraçado a música. Muito pelo contrário. Sempre me apoiaram. Olha que sorte eu tive!

Em 1984, juntamente com meu amigo Luiz Lombardi (assinante do Ritmismo.com, que inclusive voltou a tocar bateria num grupo que toca anos 80), que morava no mesmo prédio que eu, comecei a fazer aulas de bateria. Nosso professor foi o querido Ronaldo Basbaum, um dos sócios de uma escola de música chamada Fama, que depois mudaria o nome para Talentus. As aulas eram em dupla, numa Gope. Tocávamos um de cada vez. Lembro que a primeira aula com o Ronaldo mudou minha vida. Na verdade, entrou naquela sala apertada um moleque de 14 anos cuja maior preocupação era não cair da bicicleta (saudade da Caloi Fórmula C) e saiu um garoto com um objetivo (tocar bateria) e uma profissão, coisas que até então nunca tinham passado pela cabeça dele. Na verdade, nunca me preocupei em o que seria quando crescesse. Além disso, tocar bateria me pareceu fácil e natural. Claro, depois vi que não era nada fácil. Até hoje acho muito difícil tocar esse negócio.

Curiosamente, a partir dos meus 14 anos nunca mais passei direto/direito na escola. Sempre pegava uma recuperaçãozinha, no mínimo (“eu odeio química, química, químicaaa, ahhh”, já dizia Herbert Viana). Eu simplesmente detestava escola. Sentia-me numa prisão e nunca fiz questão de ser um aluno exemplar, até porque minha cabeça e minha alma estavam bem longe dali. O curioso é que ainda me encontro regularmente com amigos do colégio Galileu Galilei, mais especificamente os caríssimos Dayvi Mizrahi, Osmar Santos, Fabio Rago Valentim e André Hubner. Claro, eu que acabei virando a ovelha negra da turma, o esquisito…

As aulas de bateria com o Ronaldo eram o ápice da minha semana. Começamos a estudar o livro do Chumbinho (o pessoal falava “o método do Clam”). No final de toda aula, o Ronaldo ligava o rádio e a gente tinha de tocar — ao menos tentar — o que estivesse rolando. Era muito bacana! Aliás, foi nessa época que me apaixonei por chimbais de 13″. O Ronaldo tinha um Avedis velho, com um puta som. Onde será que está esse chimbal?
No final do ano de 1984, a escola Fama fez uma audição com os alunos. Foi quando toquei em público pela primeira vez. A apresentação foi numa escolinha chamada Comecinho de Vida (olha que sugestivo), na Alameda dos Tupiniquins, a poucas quadras da escola de música. Toquei Hey Jude e o Luiz tocou Help. Na foto, à minha direita está o Ronaldo, dando um help, mais que bem-vindo. Inesquecível o friozinho na barriga.

Importante dizer que o Ronaldo foi meu primeiro herói. Ainda é! Ano retrasado, ele e eu assistimos a um show do Ringo Starr em São Paulo. Ô sorte!
No ano seguinte, em 1985, ganhei dos meus pais minha primeira bateria. Meu pai pesquisou exaustivamente no jornal Primeira Mão, mas acabou comprando uma bateria Luthier, feita pelo Tibério. Caixa 14″x6½”, bumbo 22″x16″, toms de 13″x9″ e 14″x10″, surdo 16″x16″, além dos pratos que peguei do meu pai.

Tempos depois, ganhei um splash Avedis de 12″, comprado na Leimar, uma loja de instrumentos (mal) tocada por uma família que destratava os clientes. Hoje virou uma loja decadente e desconhecida. Chupa!!!
Meu vizinho de baixo enlouquecia com a barulheira que eu e a pretinha fazíamos. Chegou a dizer que ia me matar, sem sucesso. Morreu antes disso…
Separei duas fotos com a Luthier, do começo da minha carreira. Uma num show em 1988 (ou 1989), com a cantora Suzana Salles. Outra num workshop que organizei com o saudoso Azael Rodrigues (o cara no meio da foto, sem cabeça e sem barriga, sou eu). Ambas as fotos mostram um Avedis 17″ e um K Custom 20″ que tenho até hoje.

Em 1986, graças à minha avó Ísis, que deu a ideia, estudei durante três semanas no 1º Seminário Brasileiro da Música Instrumental, em Ouro Preto, organizado pelo desorganizado Toninho Horta (que aparece na próxima foto), compositor de pérolas da nossa música. Lá, tive o privilégio de estudar com Emílio Gama e Pascoal Meirelles, que depois virou um caro amigo, um amigo ídolo! Foi a porta de entrada para eu me tornar músico profissional de vez. Vi muito som de responsa. Zimbo Trio, Cama de Gato, Pau Brasil, Victor Biglione…

Me apaixonei pela música instrumental, a “música dos músicos”. Meu caro amigo Andre Tandeta tem uma boa parcela de culpa nisso, mas essa é outra história.
Em 1987 comecei a, mesmo sem muito preparo e conhecimento, dar aulas na escola Fama, justamente onde comecei a estudar bateria. Foi a convite de um dos donos, Flávio Sandoval. Comecei a tocar com alguns professores (inclusive com o Flávio), ganhar salário, cachê em shows etc. Em suma: daí em diante a coisa começou a ficar mais séria. Eu só queria tocar. A vida parecia simples e fácil. E era.
O fato é que, apesar das responsabilidades e dos cabelos brancos de hoje, ainda guardo aquela centelha que começou há 33 anos, talvez não com o mesmo romantismo, até porque as fichas vão caindo, junto com os cabelos. Ainda amo escutar e fazer música, e espero que nunca perca isso. Já vi alguns músicos perderem, e alguns muito bons. Isso me preocupa. Tudo bem. Na terapia tento resolver…

Depois desse tempo todo trabalhando como músico, um dos presentes que recebi foi tocar com alguns dos caras por quem eu ficava babando na TV, a começar por Herbert Viana e Bi Ribeiro, que pediram para tocar (várias músicas) num show com uma banda da qual fiz parte, o Kaduna, na ocasião em que acompanhamos o Tony Lindsay, vocalista do Santana, num festival em Parati. Foi nessa ocasião que conheci minha mulher, Valeria. Presentes que a música me deu.

Toquei com boa parte do pessoal do pop/rock que bombou nos anos 1980. Mauricio Gasperini (Rádio Táxi), Wander Taffo, Leo Jaime, Paulo Ricardo, Paulo Miklos, Paulinho Moska (que fazia parte do grupo João Penca e seus Miquinhos Amestrados), Arnaldo Antunes, Kid Vinil, Clemente, Francisco Frias (guitarrista que tocava no Egotrip, banda que tinha Pedro Gil na bateria e Arthur Maia no baixo) e por aí vai, inclusive Sá & Guarabyra, com quem toco há vários anos (impossível não lembrar da novela Roque Santeiro, que eu assistia por causa da… Claudia Raia).

Me crucifique, mas adorei os anos 1980!
De um bom tempo para cá, voltei a ser roqueiro. E estou adorando! Apesar dos presentes que ganhei por atuar como músico profissional, confesso que sinto um pouco de falta da parte amadora/inocente da música, sem preocupação com o business, produtores, donos de bar, bicos que habitam importadoras e puxadas de tapete, comuns no meio musical.
Sinto um pouco de falta de ser um músico amador, que ama a música e ponto-final. Danem-se as contas para pagar com música. E dane-se também o que as pessoas vão pensar de você. É libertador tocar pelo simples prazer de… tocar.
Enfim, boa parte daquele garoto de 14 anos está neste corpinho de 47. E é bom que ele fique por aqui.
Chega de blá-blá-blá. Vou tocar um pouco e depois jogar um pouquinho de Resident Evil VII!

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