Quem não tem competência não se estabelece. Será?

Por Christiano Rocha

Iniciarei este texto com a seguinte opinião: a frase — um dia famosa — “quem não tem competência não se estabelece” já era. Esquece. Foi-se o tempo em que a banda tocava assim. O mundo virtual acabou com isso de vez, deu o golpe de misericórdia. (Não acredite em tudo que um youtuber, ou algo do tipo, diz.)

Hoje é comum ouvirmos frases como “mais importante que ser bom é as pessoas acharem que você é bom”. Olha só que beleza.

Na necessidade de se adequar aos novos tempos, acabei entrando em redes sociais e aprendendo a mexer em programas de computador. De um mais simples Word a um mais complicado e pentelho Vegas. Justo eu, que detesto botões e fios. No fim das contas, sou eu quem filma, edita e posta alguns de meus vídeos quase caseiros.

Estou no “Insta” e no “Face”. Olha só como fiquei moderninho. Só um detalhe: nunca entrei numa gig por causa de internet. Não que seja impossível, mas geralmente um trabalho bem executado puxa outro. Ou não.

Agora “piorei”. Estou com uma plataforma de ensino online para bateristas, com estudos, entrevistas, dicas etc. O site é bom, e as pessoas precisam saber disso, só que até hoje não entendi direito o que é wordpress, “indexar” e outros termos importantes para quem trabalha em ambiente virtual, para um público que ama baixar coisas e tem como uma de suas palavras prediletas “gratuito”. Claro, mesmo entrando no universo do ensino virtual, minha maior prioridade ainda é tocar. Sou do tempo em que a pergunta-chave era “Com quem ele já tocou?”, não “Quantos likes o vídeo dele tem?”. Mas estou me adaptando. Cachorro velho aprende truque novo. Apenas demora mais…

Outra coisa me fez abrir os olhos para o mundo virtual: infelizmente, o papel está virando coisa do passado. Que nem LP: sempre vai ter, só que menos. Principalmente quando se trata de jornais e revistas. Escrevo isso depois de ter trabalhado mais de dez anos numa revista especializada em bateria, e me desligado ao ver o futuro sombrio em relação ao “palpável”, mesmo ainda gostando de ler uma revista, não uma tela, como você está fazendo aqui, agora.

Deixando de lado o fator sorte, que existe, e sobre o qual já escrevi (numa revista, a propósito), a internet é um lugar onde você pode ser notado.

Na verdade, a internet é um lugar/terra de ninguém repleto de “mestres” (eu não sou!) e no qual é possível qualquer idiota escrever o que quiser, talvez no meio de algum surto psicótico.

Ah, mas papel também aceita tudo. Sim, mas existia — ou deveria existir — alguém para ao menos querer publicar suas palavras. Em última análise, um filtro. Tudo bem que às vezes esse filtro podia ser mais idiota que a dupla Debi e Lóide.

Internet não precisa de filtro, não há crivo para o que se “produz”, exceto talvez pelo thumb down, que pode ser acionado por outro idiota. “Omar Hakim e Teo Lima não suingam; Ramon Montagner, Kiko Freitas, Jojo Mayer e Buddy Rich não têm técnica; Elóy Casagrande e Max Kolesne não tocam nada de bumbo duplo; Vinnie Colaiuta e Carlos Bala não conseguem ler e interpretar uma partitura; Peter Erskine não tem classe nem dinâmica.” Pronto. Aí um jumento posta uma pérola como essa e vira assunto na web, cai na boca no povo. Viu como é fácil?

Recentemente, vi um teaser com um pseudomúsico/educador que, segundo seu próprio release, não tocou com ninguém, “famoso” ou não, e não formou ninguém digno de nota, dizendo com toda a segurança algo como “quem abafa um tambor está por fora”. Pergunto: será que esse caboclo já pisou num estúdio, daqueles que têm um técnico e um produtor?

Sem contar gente de quem nunca ouvi falar, nunca vi tocar numa bateria (apenas num pad!) dizendo que “não precisa estudar rudimentos”. Será que eu e meus caros colegas aprendemos — e ensinamos — tudo errado?

Ah, mas esses caras bombam na internet (tudo que eu mais queria na minha vida, mais que tocar com meus heróis!). Likes, views, seguidores, links patrocinados, marketing virtual, incontáveis frases de efeito, neurolinguística… Só que sem conteúdo. Esse é o “pobrema”. De onde eu venho, isso tem alguns nomes: oportunismo, má-fé, enganação, enrolação.

Quem não tem competência pode se estabelecer sim. Garanto! (Só não garanto que você descubra os segredos de tocar bateria, e que aprenda a tocar bateria em “xis” tempo.) Um Zé Roela pode se estabelecer pacas! Não importa se toca, fala, escreve e ensina mal.

Em contrapartida, tem muita coisa bacana na internet. Desde o Drumeo a cursos online com grandes músicos, como Edu Ribeiro, Cuca Teixeira, John Patitucci, entre tantos outros, inclusive Dave Weckl, que prepara material para uma escola de bateria online. Trata-se de músicos com pedigree. Músicos e educadores que ralaram para ser o que são. E que se adaptaram, mas com qualidade e verdade, sem vender a alma para o diabo. Nenhum problema em likes, views, seguidores e links patrocinados, a não ser que falte conteúdo.

O perigo não é vender o peixe, afinal precisamos trabalhar, produzir. O perigo é se vender.

Moral da história: cuidado com incompetentes estabelecidos!

 

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