Sugestões, sem votos de feliz ano novo

Por Christiano Rocha

Em vez de pular ondas numa praia repleta de gente vestida de branco gritando, eu preferiria pular as tradicionais festas de Natal e de Ano Novo, que acho um porre, mesmo sem beber. Bebendo também acho.

Adoraria passar batido pelo festival de rojões Caramuru (antes fossem Noble & Cooley), assim como as mensagens impessoais coladas no WhatsApp, enviadas às 3h30 da manhã, hora boa para dormir. Ou para escrever este texto.

Estou parecendo Statler e Waldorf, aqueles dois velhinhos mal-humorados do The Muppet Show, mas ao menos consegui pular os especiais de TV de fim/começo de ano, com atrações dignas de um “camp de tortura”, com representantes dos vikings, da Santa Inquisição, da SS, dos cartéis de drogas e afins. Em suma: quanta porcaria! Ah, mas o povo gosta…

Uma coisa boa desse período com pouco trabalho e tempo livre, luxo que faço questão de valorizar, é que estou aproveitando bastante, e sem culpa. Lendo, indo ao cinema, testando receitas e panelas novas, assim como assistindo a uma enxurrada de documentários na Netflix (nem vou entrar no assunto “addictive series”, como Breaking Bad, Dexter, Narcos, Ozark, Vikings, Stranger Things, Frontier…). Documentários sobre a Segunda Guerra (como O Trem de Hitler – A Besta de Aço e Nazi Secret Files) e política (The Square, Winter on Fire: Ukraine’s Fight for Freedom, The Propaganda Game, Under the Sun etc.), passando pela história da sensacional — e saudosa — Tower Records (All Things Must Pass: The Rise and Fall of Tower Records) e pela falência da indústria pornô (Pornocracy: The New Sex Multinationals), que, assim como a Tower, tem muito em comum com a falência da indústria fonográfica. De John Coltrane (Chasing Trane) a Twisted Sister (We Are Twisted F… Sister!), passando por: Hired Gun (sobre os nem sempre valorizados músicos de apoio [rings a bell?]), I Called Him Morgan (sobre o trompetista Lee Morgan), Chicago (a banda, não a cidade), Eagles (a banda, não a ave), George Harrison – Living in the Material World, Keith Richards – Under the Influence (com Steve Jordan!), SHOT! O Mantra Psicoespiritual do Rock (sobre o fotógrafo Mick Rock), Afraid of the Dark, sobre o grande Nat King Kole (esse, sim, foi um rei!) etc.

Tenho bastante simpatia pelos “azarões” (eu me considero um), o que me remete ao documentário Anvil! The Story of Anvil. Não é o tipo de som que me agrada, mas que história bacana!

Outro documentário que vi, e um dos poucos de que não gostei, foi sobre o David Bowie (Bowie: The Man Who Changed the World), pois parece que estavam mais interessados no figurino do que nas músicas, mesmo ele tendo papel importante na trajetória do artista.

Falemos mais sobre David Bowie. Esse cara de mil caras despertou minha atenção quando rolou a colaboração com a dupla (esse termo também lhe causa arrepios?) Pat Metheny/Lyle Mays, namúsica “This Is Not America”, presente na trilha do filme The Falcon and the Snow Man (1985). Difícil não citar também a gravação de “Under Pressure”, junto com o Queen.

Outra coisa que me marcou foi a participação de Bowie como protagonista do filme Furyo, em Nome da Honra (1983), que tem Ryuichi Sakamoto assinando a trilha. Aliás, a Verinha Figueiredo foi muito feliz em gravar uma versão de “Merry Christmas, Mr. Lawrence” em seu primeiro disco.

Como aqui não estou tratando especificamente de bateria, não vou adentrar no assunto “bateristas de Bowie”, mas vou citar três bateristas de que gosto bastante e que trabalharam com ele: Omar Hakim, Tony Thompson (in memoriam) e Aynsley Dunbar.

Enfim, depois de assistir ao documentário, fui escutar no Spotify o último disco do Bowie, Black Star, lançado dois dias antes de sua morte, ou seja, literalmente o “último disco”, não o “mais recente”. Ele sabia que ia partir, então não se trata de um disco para vender. Foi o canto de um cisne, o que despertou em mim uma curiosidade mórbida.

Ao escutar o enigmático disco — várias vezes, com fone, sem Facebook por perto —, a última coisa que eu queria era prestar atenção na bateria, mas acabei me surpreendendo justamente com o baterista, que não fazia a menor ideia de quem era. Fui olhar no Google. Mark Guiliana.

Apesar de ter ouvido falar muito bem do Guiliana, não sabia muito a respeito do trabalho dele. Sendo assim, fui da busca no Google para a busca no YouTube. Descobri, graças ao chamativo título (“Jojo Mayer and Mark Guiliana in It Only Happens Once Documentary – Vlog #39 Jan 7th 2017”), um baixista inglês chamado Janek Gwizdala. (Esses caras têm nomes tão legais, não é mesmo?)

A música que abre o vídeo, “Parallel Worlds”, me pegou no ato. Voltei ao Spotify e escutei o disco inteiro, It Only Happens Once, do Gwizdala, que conta com Mark Guiliana e Jojo Mayer na bateria. Desnecessário dizer que vale muito a pena escutar esse trabalho. (Ouça com carinho a faixa “Benny”.)

Enfim, em vez de desejar blá-blá-blá em mais uma volta de nosso pequeno e frágil planeta (nosso?) em torno de nossa pequena estrela (nossa?), deixo aqui algumas dicas de final, começo ou meio de ciclo.

Ah, e caso queira me recomendar algo (livro, filme, receita, panela, disco, série, documentário etc.), por favor, envie um e-mail para o velhaco curioso que vos escreve.

Câmbio e desligo, Ground Control.